Paula Nascimento, Gabriel Rodrigues e Ana Fernandes.
Pois bem, é meia noite. Começa agora a tradicional queima de fogos na praia de Copacabana, uma das maiores celebrações de réveillon do planeta. Estima-se um imenso público entre turistas e cariocas.
E eu até desejaria um feliz ano novo para vocês, meus caros ouvintes, embora eu tenha certeza de que "feliz" esse ano não vai ter nada. Ao menos pra mim, tenho certeza que meus dias continuarão a mesma coisa e as noites, ah!, essas continuarão regadas a café com guaraná.
Presumo que estejam se perguntando o porquê dessa minha descrença e eu vos digo: escolhi ser jornalista.
Apaixonado pela imprensa, comprometido com a verdade e o ideal de justiça, achei que essa era a profissão que satisfaria minha vontade de mudar o mundo. Para bem ou para mal, não me encontro satisfeito. Que vida é essa que em pleno ano novo estou aqui cobrindo essa maldita queima de fogos - coisa que eu sempre odiei por me dar dor de cabeça - enquanto minha ex-mulher e meus filhos estão celebrando o ano novo na casa da mãe do cretino que estava escondido no meu armário há dois anos!
O cretino era advogado. Todo mundo adora advogado! Mas o tal do jornalista, aquele fumante, com olheiras enormes e credencial de imprensa, esse ninguém gosta! E é esse o cara que toma guardachuvadas por fazer o seu trabalho (quem nunca, amigos jornalistas?). Certa vez, uma amiga minha que trabalhava na tevê apanhou da mãe de um político porque noticiou o esquema de corrupção em que o danado estava envolvido! Complicado, né? A gente aqui falando a verdade e apanhando por isso.
Ossos do ofício.
Tive que aprender a usar o twitter inclusive. Outro osso do ofício. Nem gosto daquela porcaria e tenho que atualizar todos os dias o twitter dessa rádio. Quatro semestres de Teorias da Comunicação pra reduzir minha notícia a 140 caracteres! Daqui uns dias estaremos grunhindo!
Tive que aprender usar iPad, iPod, iFuck e meu salário não dá nem pra comprar um mp3. Pois é, outro indicativo da infelicidade desse ano que nasce é que eu não terei aumento. Recebo mal, tenho mil coisas pra fazer, todo dia é pauta nova... E o feriado? Isso nem existe.
Vocês estão aí em casa, bebendo, nem ouvindo essa rádio e eu aqui, meus caros ouvintes, transmitindo essa baderna na Copacabana. E sabe o que é pior? Depois do ano novo vem o Carnaval, tem mil acidentes acontecendo e eu preciso cobrir todos eles. E eu, que nem tempo tenho pra transar, tenho que lembrar esses mil jovens de micareta que tem que usar camisinha! Como vocês esperam que eu goste de Carnaval? Natal, Páscoa, Dia das Mães, Dia do Trabalhador... Na moral, a última vez que eu tive feriado foi no penúltimo ano de faculdade, porque no último eu já tinha arranjado um estágio.
E vocês aí são felizes porque não têm um editor chefe, ele me olha na cara e fala com aquela boca gorda dele que minha pauta tá péssima. O filho de p-papai é mais novo que eu, trabalhou um ano como jornalista e eu tô há quinze nesse perrengue e vem falar que a minha pauta tá péssima?! Não dou conta, não sou obrigado! Sinceramente, chefe já é ruim, mas editor... O danado corta o seu texto, te manda trabalhar além do horário, manda você cobrir lançamento de CD de pagode e ainda entrevistar a menina do Big Brother que posou na sua revista favorita.
Na faculdade, eu pensei que ia ser ótimo. Minha esposa casou comigo achando que eu ia ser editor chefe do New York Times e aqui estou eu. Isso explica porque eu estou divorciado, não? Se eu fosse médico, como minha mãe queria, ou até advogado, como aquele cretino que come meu amor, provavelmente eu teria uma loira gostosa do meu lado. Sério, todo rico tem uma loira gostosa do seu lado.
Foda mesmo é quando a gente tem que ir cobrir Feira de Automóveis, vejo aqueles carros, falo bem deles, sei tudo sobre eles e nem dinheiro pra comprar uma moto eu tenho. Ainda bem que eu tenho auxílio transporte pro meu metrô porque olha... Não tá fácil.
Meu ex editor diz que meu problema é acreditar demais na profissão, tenho fé na função social do jornalista e me esqueço que atualmente notícia é só mais um produto. Deixa eu dar uma de Marx e culpar esse capitalismo que acabou com o ideal da minha profissão.
Vocês ouvintes querem ouvir falar de política? De cultura? De avanços científicos? De descobertas de curas? Não. Vocês, meus caros ouvintes, gostam é de ver Xuxa estuprada, Carolina Dieckman pelada, sexo no BBB, vocês gostam de cabelo novo do Neymar, de briguinha de partido, de Carnaval. Meus caros ouvintes, vocês nem pra me ajudar! Se vocês se preocupassem com a verdade, eu não estaria aqui cobrindo essa queima de fogos!
Inclusive tem mais um sendo lançado agora! Olha que fofo. Tem formato de coração! Coloridinho! Na minha época a gente ainda soltava bombinha.
Se bem que hoje em dia eu ouço esses fogos e penso: é tiro. Vim pro Rio de Janeiro achando que ia ser o William Bonner, enquanto ele tá lá casado com a Fátima eu tô aqui, nem a produtora eu consegui pegar.
Mas eu quero dizer um coisa: se seu filho chegar em casa dizendo "quero ser jornalista", fala pra ele: menino você quer mesmo viver sem dormir e ficar com a cabeça na deadline? Pergunta se o moleque curte feriado, fim de semana, mulher, vida social em geral. Pergunta se ele quer ser rico. Esse tipo de coisa, sabe? Se ele responder que sim, você diz: "menino vai ser publicitário".
Mas se ele falar que não se importa de abrir mão disso para ser jornalista... Incentiva. Porque tem gente que nasceu pro jornalismo. Na verdade, agora, na minha idade, eu acho que o jornalismo é que escolhe a gente. Um dia você está lá vivendo e percebe que a vida não seria nada, se não fosse o jornalismo.
Vou explicar: um dia você está lá levando sua vida normalmente e percebe que há um fio que une o mundo inteiro. Esse fio é a comunicação, é a notícia, é o telejornal, é o trabalho do jornalista que permite que o mundo seja pequeno, mesmo sendo grande como ele é.
Foi assim comigo. Um dia eu percebi que isso era o que eu amava, e quer saber? Eu tô reclamando, mas até hoje não pedi demissão. Adoro quando acontece alguma coisa emocionante e eu tenho que ir cobrir, adoro a sensação de terminar a tempo do deadline e entre o amor e o jornalismo... Eu escolho o coração partido.
A verdade é que naquelas noites que eu não estou sob efeito da cafeína e da nicotina, eu me sinto quase um herói. Mesmo que esse programa não tenha audiência, mesmo que eu esteja falando sozinho, eu sinto que eu estou fazendo minha parte.
E sabe, se seu filho diz que quer ser jornalista, não só o incentive, mas também tenha orgulho dele. A coragem desse moleque é inestimável. Pois se não houvesse gente com essa coragem, as coisas estariam bem piores do que já estão. Pensa o caos do mundo se não existisse o jornal das oito? Pois é.
Ah, a queima de fogos já acabou.
Aqui é Walter Ego para a Rádio Mundi.
Vamos aos nossos patrocinadores.
[Tomara que meu editor não tenha escutado isso.]
Texto feito por mim e dois amigos para a disciplina de Mídias e Comunicação do curso de Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo.
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