domingo, 10 de junho de 2012

Maria de Lourdes


"Eu me chamo Maria de Lourdes, mas me chamam de Lurdinha. É que eu sou muito carinhosa e Lurdinha é um apelido carinhoso."

Ela falou isso enquanto segurava minha mão sem muita força. Acho que poucas pessoas de idade seguram nossas mãos com força, na maioria das vezes seus toques são cheios de suavidade e delicadeza. Sua mão era macia e notei que o esmalte - perolado - já estava ali havia algum tempo.
Antes mesmo de ouvir qualquer outra coisa da boca de dona Lurdinha, eu soube que ela era uma das pessoas mais doces que eu já conhecera e, provavelmente, que eu jamais conheceria. 
É que ela se parecia muito com minha avó. E minha avó é um anjo. Fiquei pensando que se existisse a possibilidade de minha avó ir parar em um asilo algum dia, ela seria exatamente igual dona Lurdinha. "Eu me chamo Maria Divina, mas me chamam de Diva" - e aí ela daria aquela risadinha linda que serve como pontuação - "É que tinha muitas Marias onde eu morava, aí ficou sendo Diva mesmo." E riria de novo. Foi aí que as lágrimas subiram aos meus olhos pela primeira vez, quando pensei na minha avó se apresentando pra alguém num asilo. Não era certo.
Dona Lurdinha falava com as outras mulheres de como era sua "meditação". Ela rezava e então rezou em voz alta pra todos nós. "Eu não faço mal a ninguém, e mesmo aqueles que fazem mal a mim eu perdoo." Como alguém poderia fazer mal a uma pessoa tão cheia de ternura quanto Dona Lurdinha eu não saberia explicar. Mas há maldade demais nesse mundo.
Dona Lurdinha nunca se casou. Mudou-se pro asilo há oito anos atrás, quando seu pai - ela o chamava de papai, só de papai - faleceu. Ela não se casou porque "o amor era grande, mas eu não suporto nem o cheiro de cerveja e de cigarro". Ela morava com seu pai e sua mãe - mamãe, ela também a chamava de mamãe - e cozinhava. Seu pai dizia "não conte pra sua mãe, mas seu arroz é melhor que o dela."
"Eu sinto muito a falta dele". E seus olhos encheram-se de lágrimas. Ela nos falou de sua afilhada, de 23 anos que ela só viu quando era bebê. Mais uma vez a associei à minha avó, que provavelmente ficaria falando de seus irmãos, irmãs, filhos, filha e seus netos. Quase pude ouvi-la dizer "A Paulinha, que é filha do meu menino mais velho, faz faculdade" - risadinha - "o que é mesmo? Acho que é Jornalismo, é, ela gosta de ler!". Dona Lurdinha nos falou de seus irmãos, disse que suas sobrinhas de Brasília a amavam muito e eu percebi que eu também amava.
Não só porque ela parecia minha avó. Eu a amava porque ela tinha aquela garra que a maioria das pessoas perde logo cedo. Porque ela era doce e já tinha experimentado tanto do amargo da vida. E eu a amava porque ela chamava seus pais de papai e de mamãe.

"Mas sabe, eu sinto que não vou morrer aqui. Deus tem um propósito pra minha vida. Eu não vou morrer aqui."

E dona Lurdinha tem esperança. E eu lutei mais uma vez contra as lágrimas ao ouvir ela dizer isso.

10/06

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