Continuação de Can I have you?
"Peggy..."
"Er... Oi Jun."
"Oi."
"É meio estranho, não é? Eu estar aqui agora."
"Inesperado, pra dizer o mínimo."
"Engraçado onde nossos pés nos levam quando não sabemos pra onde ir."
"Como sabia que eu ainda morava aqui?"
"Eu não sabia, na verdade. Foi mais sorte, não sei. Eu estava dando voltas na cidade com meu carro e de repente me peguei na porta do seu prédio. Resolvi vir se ainda estava aqui."
"Entendi... Te devo uma cerveja, não?"
"É, deve sim."
Ela olhava a cidade, aturdida, pela janela do carro.
"Peggy... Você tá ok?"
"Tô bem, Jun."
"Parece meio distante."
"Nós temos estado distantes nos últimos anos, não?"
"Sim, mas, bem..."
"Jun, não me pergunte sobre como vão as coisas aqui dentro. Me fala de você, por favor, me diz como tem estado sua vida, sei lá, essas coisas que velhos amigos conversam, sabe?"
"Sei. Bem, eu me casei, tenho uma filha e me divorciei."
"Uma filha?"
"Aham. Tem doze anos agora."
"Eu não tive filhos."
"Oh."
"É."
"Por que se divorciou?"
"Não dava certo. Nós dois nunca nos amamos, mas era conveniente estarmos juntos. Por mim, eu viveria o resto da vida ao lado dela, mas ela cismou que queria liberdade."
"Eu também queria ser livre."
"Quem não queria, Peggy?"
"Tem razão. Essa cidade não mudou nada, né?"
"Não. Umas luzes amarelas no lugar das brancas e pavimentação em alguns outros lugares. O resto continua a mesma merda."
"E você não saiu daqui todos esses anos."
"É..."
"Por que?"
"E você, Peggy, por onde andou?"
"Morei na capital uns tempos, depois fui pro Sul."
"Entendi. E gostou da vida da capital? Garçom, por favor, dois chopps aqui."
"Gostei... É agitado, diferente. Mas cansa. Estamos ficando velhos, não é, Jun? Hahahha. Não aguento o ritmo de uma capital mais."
"É, realmente estamos ficando velhos, Peggy. Mas, sempre soubemos que isso ia acontecer."
"Eu esperava ser feliz."
"Eu também."
"É por isso que me sinto velha, Jun. Já tenho 42 anos e não consegui nada de concreto nessa vida. Eu não sei responder quem eu sou."
"Eu tenho minha filha de concreto, de estável, de meu. Mas, não sei responder quem eu sou também, Peggy... Acho que ninguém sabe, afinal."
"Sem espuma, por favor."
"Peggy..."
"Oi?"
"Eu estava esperando você voltar."
"Hã?"
"Foi por isso que não me mudei."
"Não entendo você."
"Nem eu me entendo, acho que só percebi agora."
"Mas quem voltou não foi aquela sua Peggy. Foi essa."
"As duas ainda são a mesma pessoa."
"Elas são bem diferentes."
"Mas ainda sorriem do mesmo jeito."
"Como sabia que eu ia voltar?"
"Do mesmo jeito que você sabia que eu ainda morava naquele apartamento. É como deve ser, né? Tipo destino, essas coisas."
"Você nunca acreditou em destino."
"Você foi meu primeiro amor e me liga de madrugada, chorando, na frente do meu apartamento e nós dois acabamos nesse bar. Se isso não é destino, o que mais pode ser?"
"Amor."
"Você nunca acreditou em amor."
"Você foi o primeiro a me falar de amor e eu estou aqui nesse bar, com você depois de anos sem te ver, chorando, após ter te telefonado de madrugada. Se isso não é amor, o que mais pode ser?"
"Carência."
Ela abaixou o rosto.
"Desculpa, Peggy, não foi o que eu quis dizer... Eu tô meio assustado, é só isso."
"Isso é a minha desculpa de covarde, Jun, não a sua."
"É que parece um sonho, Margareth. Parece que a qualquer momento você vai só sumir de novo."
"Eu estou aqui agora."
"Eu não quero que vá embora."
"Me faz ficar."
"Pare com esses joguinhos."
"Eu preciso de uma razão, Jun. Eu preciso de concretude."
"Eu acho que te amo."
"Acha?"
"Não sei se já amei alguma vez e, se amei, não me lembro como é. Mas, eu não quero acordar se isso for um sonho."
"Eu também acho que te amo, Jun."
Suas mãos se tocaram sobre a mesa.
"Não é tarde demais?"
"Ah, Peggy. Eu já não tenho nada a perder, já me tiraram tudo que podiam."
"Eu também já perdi tudo. E, como posso te dar alguma coisa se não sobrou mais nada, Jun?"
"Sobrou meu endereço aí dentro de você. O resto a gente reconstrói."
"Podemos ir pra outro lugar?"
"Se prometer não ir embora ao amanhecer."
2 comentários:
Pra começar, eu não tenho nem o que falar! Mas, me forçando a falar, digo que adorei, é muito bonito, genial! O interessante é a passagem do tempo e do lugar com as próprias palavras deles! Sério, gostei demais!
Obrigada, Vanessa! *-*
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