quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Não tenho asas


"Você devia largar de ser bobo, na moral." - Ela disse com um vestígio de gargalhada em seu rosto. Dei uma risada baixinha e continuei olhando pro céu, estávamos deitados bem próximos uns ao outro, a ponto de eu sentir o cheiro de camomila de seus cabelos.
Eu sabia, embora não ousasse, que se eu me aproximasse um pouco mais eu também sentiria o cheiro de mel e aveia que emanava da sua pele, e, se eu colocasse meu nariz em seu pescoço, seria um cheiro floral a me invadir os sentidos.
"Olha, aquela ali parece um cachorro!"
"Cachorro daonde, sua cega? Só se ele tiver sido atropelado."
Ela riu novamente. 
"Você é um idiota, sabia?"
"Isso tudo é amor incubado, Gabi."
"Claro..."
E ela riu de novo.
Havia algum tempo eu notei que poderia falar qualquer coisa durante qualquer tempo só pra fazê-la rir. Foi aí que percebi que Gabriela não era um homem pra mim, porque amiga minha é como homem. Mas não a Gabi, com seu jeito de menina marrenta que se derretia quando ouvia alguma música romântica ou lia CFA. Não a Gabi, que perdia de mim em quase todos os jogos no videogame, menos nos de lutinha, onde aquelas sequências aleatórias e desesperadas delas acabavam por me vencer. 
A Gabi era mulher pra mim. E mais, acho que a Gabi é a mulher da minha vida.
"Ó, Gabi, aquela ali parece um cachorro. Viu? Tem patas e não nadadeiras como aquele seu..."
"Aquilo ali tá mais pra um Cupido, não tá vendo o arco e a aljava? Tem que ser bem ceguinho mesmo pra confundir um Cupido com um cachorro."
Ou pra confundir amor com amizade. Eu costumo ser bem ceguinho com essas coisas mesmo, embora hoje seja óbvio que o amor tem asas e a amizade, patas.
"Ai, ai, claro... Agora qualquer cachorro pode ser Cupido. Cê tá bem esperta mesmo né?"
"Tô sim, ok?"
"Ok."
Gabi já conhecia o Cupido. Era apaixonada por um carinha aí. Eu adoraria dizer que ele era um idiota e que não a merecia e que eu sou o amigo legal que ela devia perceber que ama, mas nem toda história é assim. Ele só é idiota por não perceber que a sorte tá do lado dele, disfarçada de uma menina de 1,59 que adora camisetas estampadas e se faz de desencanada mesmo sendo uma romântica incorrigível. E eu não sou amigo legal que ela vai perceber que ama, porque ela não me ama. É só isso, sem dramas ou dúvidas. Gabriela não me ama e nem pretende amar.
"Você tá dormindo?"
"Eu não."
"Tá calado, tá planejando alguma coisa maligna?"
"Claro que não, Gabi, eu sou um cara legal."
"Claro..."
"Sérião. Sou o cara mais legal que você conhece."
"É mesmo, mas não vale ficar metido por isso."
Era isso. Gabriela é uma dessas meninas que precisa mais de uma risada do que de uma declaração de amor, que prefere ganhar um CD do que flores, que prefere jogar do que ver filmes românticos. Gabi precisava mais de abraços sinceros do que beijos. A verdade é que ela precisava muito mais de um melhor amigo do que um namorado.
E, pra isso, eu estava ali pra ela. Pra fazer rir toda vez que ela precisar.
"Olha, aquela ali parece você."
"Por que? Nem forma de gente aquilo tem!"
"E você tem?"
E ela riu novamente.

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