sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

She dreamed Paradise


Por volta das seis e quarenta a chuva começou a cair. Era moça, ainda garoa, dessas que as pessoas saldam alegremente depois de um dia quente. Mas, o povo não gosta de persistência. A garoa que era delicada e doce, transformou-se rapidamente em uma chuva forte, não, não daquelas chuvas furiosas que querem arrancar tudo, lavar tudo. Mas aquela chuva que molha sem pena, que molha e não se importa com o tempo que vai durar.
Então, todos correram pra suas casas. Abrigaram-se sob os toldos, capuzes, guarda-chuvas, ou sob quaisquer objetos capazes de proteger a cabeça das gotas frias e constantes. Menos uma menina. Não, não era uma criança. Devia ter seus quinze anos de mocidade, embora parecesse mais jovem. Ela não correu, nem procurou nenhum abrigo. Ela só continuou andando.
Cabelos molhados, roupas encharcadas e cabeça ainda alta. Ela continuou andando pela avenida larga que, provavelmente, seria a direção de sua casa. Foi um daqueles momentos mágicos. Daqueles que nenhuma alma ousa transitar de cabeça nua. Carros e ônibus lotados. O mundo parecia recolhido à proteção de tetos quentes e confortáveis. Mas não aquela menina.
Ela recebia a chuva como algo corriqueiro. A chuva parecia pertencer a ela, ou seria ela que pertencia à chuva? Não importava. Ela era a única que enfrentava as pesadas lágrimas do céu.
As nuvens que encobriam o Sol se afastaram e o deixaram brilhar. Sete e quinze, o Sol já devia ter se retirado com toda sua glória, mas eram os últimos dias do horário de verão e o Sol brilhou em meio à chuva. Havia ali um terreno vago, cheio de flores do mato, que se assemelhavam tanto a trigo banhadas em dourado.
O Sol, apoiado pela chuva, transformou aquele terreno baldio em um mar de luz. Era um pequeno presente dos céus para os terrenos, entretanto, todos estavam muito ocupados se abrigando da chuva e correndo pra suas casas para admirar aquele pedaço do paraíso. Mas não aquela menina, molhada até os ossos, a única que se virou pra ver o espetáculo. E, parece impossível, mas eu juro, ela ainda conseguiu se molhar ainda mais, pois havia água em seus olhos.

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