Por volta das seis
e quarenta a chuva começou a cair. Era moça, ainda garoa, dessas que as pessoas
saldam alegremente depois de um dia quente. Mas, o povo não gosta de
persistência. A garoa que era delicada e doce, transformou-se rapidamente em
uma chuva forte, não, não daquelas chuvas furiosas que querem arrancar tudo,
lavar tudo. Mas aquela chuva que molha sem pena, que molha e não se importa com
o tempo que vai durar.
Então, todos
correram pra suas casas. Abrigaram-se sob os toldos, capuzes, guarda-chuvas, ou
sob quaisquer objetos capazes de proteger a cabeça das gotas frias e
constantes. Menos uma menina. Não, não era uma criança. Devia ter seus quinze
anos de mocidade, embora parecesse mais jovem. Ela não correu, nem procurou nenhum
abrigo. Ela só continuou andando.
Cabelos molhados,
roupas encharcadas e cabeça ainda alta. Ela continuou andando pela avenida
larga que, provavelmente, seria a direção de sua casa. Foi um daqueles momentos
mágicos. Daqueles que nenhuma alma ousa transitar de cabeça nua. Carros e
ônibus lotados. O mundo parecia recolhido à proteção de tetos quentes e
confortáveis. Mas não aquela menina.
Ela recebia a chuva
como algo corriqueiro. A chuva parecia pertencer a ela, ou seria ela que
pertencia à chuva? Não importava. Ela era a única que enfrentava as pesadas
lágrimas do céu.
As nuvens que
encobriam o Sol se afastaram e o deixaram brilhar. Sete e quinze, o Sol já
devia ter se retirado com toda sua glória, mas eram os últimos dias do horário
de verão e o Sol brilhou em meio à chuva. Havia ali um terreno vago, cheio de
flores do mato, que se assemelhavam tanto a trigo banhadas em dourado.
O Sol, apoiado pela
chuva, transformou aquele terreno baldio em um mar de luz. Era um pequeno
presente dos céus para os terrenos, entretanto, todos estavam muito ocupados se
abrigando da chuva e correndo pra suas casas para admirar aquele pedaço do
paraíso. Mas não aquela menina, molhada até os ossos, a única que se virou pra
ver o espetáculo. E, parece impossível, mas eu juro, ela ainda conseguiu se
molhar ainda mais, pois havia água em seus olhos.
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