quarta-feira, 4 de abril de 2012

Telefonema


-Ô, menina, desculpa te ligar, eu sei que são quatro da manhã, mas eu ainda não consigo dormir. Não, não diz nada, quero só que você me responda uma coisa. É que eu tô aqui na sacada fumando mais um cigarro pra ver se consigo te fundir a fumaça e, quem sabe assim, te fazer desaparecer. Tô aqui fingindo que consigo te tirar da cabeça se passar a noite inteira pensando em você. 
Fugi aqui pra fora porque meu quarto tem um monte de coisas suas. Aquela jaqueta azul que você deixou aqui sábado passado, as garrafas que esvaziamos juntos há umas duas noites, os presentes que você me deu durante esses anos. 
E não são só essas coisas que se pode ver, mas tem um punhado de memórias também. Ali na porta tem você morrendo de vergonha na primeira vez que veio aqui, na poltrona do computador tem você e seu tédio enquanto eu jogava, e na cama... Tem seu cheiro, sua voz, seu sorriso, tem você deitada no meu peito. 
Ô, menina, aqui fora ainda tem sua forma na poltrona e seu riso que ficou no ar. E aqui dentro tem só você. 
É foda ver isso tudo, menina. Ver esses escombros de nós dois. Ver que o que era tudo, agora é só resto. É, eu devo estar meio bêbado, mas não é só por isso que eu não entendo. Ô, menina, o que que eu fiz de errado? Eu não te fiz sorrir todos os dias desses três anos e sete meses? Eu não te amei? 
“Acabou.”. Até esse ponto final tava na sua fala. Não foi um “acabou...”, foi definitivo, pensado, inquestionável. Mas a gente ia se casar, não ia? Íamos ter três filhos, dois cachorros e uma casinha em alguma cidade no sul do país. A gente ia ser feliz, menina, eu tinha te prometido. Logo agora que eu vou me formar, você me vem com essa de acabou. As coisas estavam dando certo, menina. Eu não posso entender. 
Fico aqui me perguntando o que você pesou na hora de me dispensar da sua vida. Eu fumo, eu bebo, futebol é sagrado aos domingos, eu já terminei com você antes porque era inseguro, eu já duvidei de você pelo mesmo motivo. Mas o que mais você colocou nessa sua balança? 
Lembra que você disse que eu era o amor da sua vida? Lembra que depois do futebol eu sempre te levava pra uma sorveteria ou um café? E quando você sentia frio eu sempre tirava minha blusa. E quando você estava triste eu sempre te contava uma piada idiota pra te fazer rir. Ô, menina, eu nunca esqueci nenhuma data importante de nós dois. Lembra daquele show do Kings of Leon que fomos juntos? Dos dias lindos que passamos em Ilhéus? Lembra das mensagens de madrugada, dos beijos roubados, dos telefonemas que duravam a noite toda? 
Lembra daquela noite que fizemos amor pela primeira vez? Lembra que quando você tinha medo eu te acalmava? Lembra de que tínhamos milhares de músicas e todas elas tinham final feliz? Lembra dos planos? Lembra que a gente ia se formar e logo casar? Lembra daquele dia que inventei de te fazer um jantar e acabamos tendo que ir jantar fora? Lembra de que tem seu nome no meu violão? 
Você lembrou que eu sempre te coloquei em primeiro lugar na minha vida? Daquelas noites que os amigos chamavam pra sair, mas eu dizia que ia ficar com você? Lembra de quando conheci seu pai e você disse que eu parecia um moleque assustado? Lembra, menina? Lembra da gente cantando junto? Lembra daquele dia que choveu muito e eu fui te ver assim mesmo? Lembra que eu te confessei todos meus segredos e chorei igual um baby no seu colo quando perdi minha mãe? 
Ô, menina, você lembrou de pesar o amor? 
Me desculpa estar chorando, mas é que quando é sobre você, eu não sei mesmo disfarçar o que sinto. Eu só queria que você me dissesse uma coisa, menina. Me diz, me diz o que você colocou do outro lado dessa sua balança. Me diz o que era mais pesado do que a base da minha vida?

2 comentários:

Warwick disse...

Curti muito esse rap.

Marê disse...

Você é maravilhosa!Sou sua maior fã sabia?Te amo.