Não pretendo ser hipócrita, não agora, às nove e vinte da noite e enquanto ouço uma chuva fina bater na janela, dizer que te esqueci e não te quero mais. Não pretendo dizer que estou muito bem, obrigada e que ando navegando em um mar de rosas.
Tampouco pretendo assumir o tédio presente que ando vivendo e a falta (estrondosa, diga-se de passagem) que você me faz. Não pretendo dizer aqui que meu coração se rasgou em mil pedaços assim como minha personalidade. Não sei mais quem eu sou ou porque sou. Ando me surpreendendo comigo mesma todos os dias.
Mas quero dizer que estou feliz. Feliz. É. Por incrível que pareça. Encarrego meu tempo com essas coisas simples da vida, sabe? Família, livros, estudos, amigos... Não me sobra tempo pra pensar, você sabe, sobre o que poderíamos ter sido.
Porque sempre foi a possibilidade que me causou dor. O “e se”, sempre foi isso que me destruiu. Essa mania de fantasiar, de imaginar, de ver nossas mãos juntas, nossos lábios colados.
Agora não tenho tempo para possibilidades. Então estou feliz. É claro que como toda ferida, a minha está cicatrizando e isso dói. Mas pelo menos não sangra, a não ser que eu resolva mexer nela. O que não pretendo fazer.
Não sou mais uma inversão louca de euforia e depressão. Sou contínua, linear, ouso dizer que previsível, embora meus amigos discordem. Não tenho mais insônia nem sonhos, durmo um sono pesado e tranquilo. Acordo e me apronto pra mais um dia, escolho meu melhor sorriso e saio de casa.
Deve estar se perguntando se estou mais sociável. Bem, sim e não. Acredite se quiser, tenho mais amigos do que antes. Porém, ainda não vejo muita graça em conhecer pessoas novas e descobrir que todas são tão podres quanto eu. Ou você.
É verdade que ainda me esforço muito para falar com você, premedito até o tom em que te cumprimentarei, o tempo que levarei pra responder. Só falo por necessidade, acredite. Assim que conseguir viver sem seus raros acenos de cabeça, suas brincadeiras e seu sorriso, eu vou parar de te procurar.
É questão de tempo. É questão de tempo para que tudo esteja cicatrizado e em seu devido lugar. Estou orgulhosa de mim, que me descobri mais forte do que imaginava ser. Eu estou voltando, não vê? Aos poucos. Estou voltando pra de onde vim, pra meninice, pra despreocupação, para a cabeça vazia. Falta pouco, muito pouco e tenho uma ou duas pessoas comigo nessa estrada.
Tenha orgulho de mim também.
Minha estrada está se afastando da sua.
Mas até duas retas paralelas se estendidas até o infinito um dia se encontram.
Essa é mais uma das cartas que não vou te mandar, mas precisava escrever. Mais um dos meus desabafos silenciosos e repentinos que são melhores do que lágrimas.
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