Nos amamos por duzentos e quarenta e oito dias com direito a sexo matinal e ir ao banheiro deixando a porta aberta. Não tínhamos dinheiro pra comprar uma cama, mas o colchão nos bastava. O resto das coisas nós dividíamos. Dividíamos o apartamento, a escova de dentes, o chuveiro, o computador. No final de semana, repartíamos a conta do bar.
Nossos amigos achavam nosso relacionamento fantástico e eu admito que achava também. Dividíamos uma vida fora dos padrões naquele quarto-cozinha localizado na Avenida Afonso Pena, de manhã íamos à faculdade, pela tarde cada um ia pro seu emprego e durante a noite éramos só um do outro.
Só que nossos amigos também diziam que nos parecíamos mais com amigos do que com um casal. Mas é que entre nós namoro sempre foi uma amizade com direito a sexo sem constrangimentos-de-dia-seguinte. E se alguém nos pedisse pra definir amor, provavelmente diríamos que amor é dormir abraçadinho e sem reclamar em um colchão de solteiro.
Na fatídica segunda-feira , dia 249, eu estava na janela observando o trânsito e esperando minha menina voltar pra casa. Ela vinha em passos lentos, cabeça baixa. Ela costumava levantar a cabeça direto rumo à janelinha do 307, nossa janelinha, e sorrir. Mas ela não levantou a cabeça.
Entrou em nosso apartamento e mal me olhou. Eu não sou muito sentimental, não perguntei se tinha acontecido alguma coisa, afinal, segundas-feiras não costumam ser boas pra muita gente.
Ela falou muito pouco sobre como foi o dia no trabalho. E enquanto ela falava, eu sentia o apartamento ficar ainda menor. As paredes se fechavam contra mim, me sufocando, comprimindo meu peito. E minha menina mal podia respirar.
Foi aí que eu percebi que aquele quarto-cozinha de número 307 era muito pequeno pra nós dois. Nossas roupas não podiam mais se misturar no armário. Naquele colchão só cabia ela.
Eram umas dezenove horas quando eu percebi que o amor tinha acabado. Ele só não estava mais ali, ele que sempre fora o terceiro morador de nossa casa. Acho que ele também não estava ali pela manhã, porque nenhum de nós abraçou a cintura do outro ou estendemos nossas mãos para que fossem juntas até a faculdade. Talvez ele tenha saído pela janela, sem que ninguém o visse. Também pode ter ficado no colchão e esquecido de se levantar. Mas acho mesmo que o esquecemos ali na Bicota, com um outro casal, ao voltar da sorveteria no domingo.
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