quinta-feira, 5 de abril de 2012

Não é tudo

-Mamãe, estou pensando em me divorciar.
-Por que, filha?
-Acho que não amo meu marido...
-Eu e seu pai fomos casados durante quarenta e sete anos e a única vez que ele demonstrou sentir algo por mim, foi quando adoeci. Ele ficou tão ruim que acabou adoecendo também e sendo levado pro hospital. Colocaram-no em um quarto fronte ao meu, lembra? E ele ficava me olhando e chorava.
Nunca entendi aquela reação. Ao sairmos do hospital, o terceiro membro de nosso casamento, o silêncio, voltou a viver entre nós. Nunca nos falamos muito, nosso casamento não fora escolha nossa e o sexo era apenas mais uma obrigação. 
Mesmo assim, quando me deram a notícia de sua morte eu me senti sem chão. E, quando jogaram terra por sobre seu caixão eu quis morrer junto dele. Nunca pensei que sentiria tanto a sua falta, nunca pensei que continuaria acordando mais cedo pra fazer o café de seu pai, mesmo depois que ele morreu.
Nosso casamento nunca foi um mar de rosas. Você sabe, seu pai costumava beber muito e só parou por causa do fígado. Às vezes, ele chegava bêbado em casa e me batia, eu disfarçava os hematomas com maquiagem e se alguém perguntasse, eu tinha caído da escada. Nunca tive coragem de dizer que fora seu pai quem me machucara.
Eu e ele compartilhávamos poucas coisas. Três filhos e duas alianças. Mas, nem por isso, eu deixava de arrumar sua gravata antes do trabalho. Fazia seu café, colocava seu jornal na mesa, ligava o rádio quando ele estava pra chegar, cozinhava seus pratos prediletos...
-Ah, mamãe, você amava o papai...
-É aí que você se engana, já que nem tudo que parece é. Parecia amor, minha filha, mas não era amor. E embora você ainda acredite que o amor é tudo, o tempo vai te mostrar que não é. Você vai ver que ter alguém que te dê um teto confortável e segurança acaba sendo maior que o amor. 
-Que coisa horrível de se dizer, mamãe!
-Horrível é perceber que o amor não enche barriga, filha. Eu amei um rapaz uma vez, amei muito, acredito que foi o amor da minha vida. Fugi de casa e fui viver com ele, mas ele não queria saber de trabalhar, só queria ficar em casa, escrevendo seus poemas. Daí um dia, quando eu disse que não podíamos viver assim, ele deixou nossa cidade sem me avisar, nunca mandou uma carta, nunca me deu notícias. Voltei pra casa com o rabo entre as pernas e meus pais me obrigaram a me casar com seu pai. Viu? Nem sempre o amor é tudo. Você procura algo perfeito, filha, mas isso não existe. Ah, não, não existe. Melhor achar alguém que te respeite e te aceite com todos seus defeitos. E isso nem sempre é amor, filha. Às vezes é só um contrato nupcial.

2 comentários:

Vanessa disse...

E afinal, o que é amor? Muito bonito Paulinha! =)

Luisa do Amaral disse...

Tapa na cara da sociedade isso aí hein. Lindo.