sábado, 12 de maio de 2012

Domingo no pier

"Eu não quero morrer... Só não quero mais viver." - Ela disse pouco antes das lágrimas começarem a cair. Teresa quase nunca chorava, era o tipo de mulher que prefere fingir não sentir nada do que expor quaisquer sentimentos. Mas agora, seu rosto pálido estava marcado por duas linhas translúcidas que escorriam do canto de seus olhos. 
"Não diga isso, Teresa... Há tanta coisa bonita pra se ver!" - Fui injusto. Ela foi verdadeira e eu retruquei sua verdade com uma mentira. Esbocei um sorriso e esperei por sua reação. Teresa levantou a cabeça e olhou pro mar que se estendia depois do pier, creio que, como era de costume, ela se assustou com aquela infinitude cinza que ao horizonte se mesclava com o céu nublado. "Vovô, você sempre me contou mentiras muito bonitas. Não, não te chamo de mentiroso... Suas mentiras nunca me machucaram, mas tornaram meu mundo mais bonito por muito tempo. Só que eu já tenho trinta e sete anos, vovô, e vi o suficiente do mundo pra saber que ele não é tão bonito assim. Não sei como você faz pra levantar da cama há oitenta e oito anos sabendo de todas as mazelas que andam soltas pelas ruas... Eu estou cansada, vovô, muito cansada. Lembra quando eu era mais nova e o senhor me trazia aqui e ia pescar? Eu achava muito chato porque tinha que ficar calada, mas o senhor me falava que talvez pudéssemos ver algumas sereias e eu logo me animava e aguardava pela aparição delas. É claro que as sereias nunca apareceram..." - Mais algumas lágrimas desceram pelo rosto de Teresa, e meus olhos começaram a se inundar - "Eu sinto que tenho vivido minha vida inteira esperando as sereias aparecerem e tudo que vejo, todos os dias, é um mar de dia nublado."
"Eu nunca menti, Teresa... Te falei de um mundo que eu queria que fosse real e, talvez, se você acreditasse nele, ele pudesse se tornar concreto. É uma pena que fosse o mundo inteiro conspirando contra mim e tornando o mundo esse caos que ele é... Mas, Teresa, minha menina, eu me levanto todos os dias porque penso que há algo de belo e de bonito nesse mundo. Eu sou um velho viúvo, já vivi o amor da minha vida, já vivi meus melhores anos e ainda não vi nenhuma sereia. Mas eu conheci uma menininha que acreditava em sereias e se ela, tão pura, acreditava, talvez elas existissem. O belo existe, Teresa, a gente é que deixa de acreditar nele. E logo nessa fase da minha vida, de avô, de dor nas costas e de catarata, eu resolvi procurar pelo belo... Acho, às vezes, que ele esteve do meu lado durante os anos que vivi com sua avó. Tarde demais, eh? Mas acredito que sobrou alguma coisa bonita nesse mundo depois que ela se foi... Por isso vou continuar acordando todos os dias, especialmente aos domingos, pra vir aqui no pier e procurar pelas sereias."
Teresa me abraçou. Eu não sei quando ela se tornou maior do que eu, mas agora ela se curvava pra encostar seu rosto no meu. Deixei minhas lágrimas caírem e dei tapinhas nas suas costas.
"Vovô... Eu vou viver pra vir aqui aos domingos procurar pelas sereias."

Um comentário:

Anônimo disse...

Lindo