Nunca fui bom com despedidas. Sempre as encarei como uma maneira confortável de engolir o passado sem remorso algum. É cômodo aceitar o fim, requer muito menos esforço do que impedir que algo acabe.
Não vou ser hipócrita e dizer, cheio de orgulho, que nunca tive que me despedir e que todos os meus relacionamentos se tornaram ruins. Não vou dizer isso porque detesto mentiras. Mas a verdade é que evitei ao máximo começar qualquer relacionamento, porque nada acaba sem um início.
Tenho amigos, mas a maioria das minhas amizades é um rio de superficialidade. Saio com eles aos fins de semana, bebemos juntos, falamos de todas as futilidades cotidianas da vida. Eles vêm e vão aos montes, e quando eles vão eu não me incomodo, são tão fáceis de substituir que nem tenho tempo de sentir sua falta.
E nas raras vezes que me descuido e esses colegas tornam-se pouco mais do que isso, quando eles começam a frequentar minha casa e me apresentam suas esposas, e, por motivo ou outro, essa quase-amizade chega ao fim, eu prefiro fingir que nunca houve realidade. Deixe que eu explico, eu prefiro fingir que todas as saídas, conversas e risos, foram falsas e nem me fizeram bem. Prefiro fingir que nunca passaram de coleguismo.
Mas Lúcia era real. Antes que eu tivesse tempo de afastá-la de mim e transformá-la em um objeto distante e irreal, aquela pequena roubou meu coração. Quando dei por mim estava no altar, com o estômago preso na garganta enquanto ela e seu pai caminhavam sobre um tapete vermelho em minha direção.
Não tivemos filhos, mas tivemos treze anos de alegrias e algumas brigas. Vivíamos de amor. Vivíamos de nós dois. E não poderíamos viver de outra forma.
Me lembro que ela sabia que ia morrer. Eu, teimoso como sempre fui, me agarrei a qualquer esperança tola de que tudo ia ficar bem e voltar ao normal. Lúcia me deu adeus, eu me recusei a responder.
Ela foi embora e levou junto sua solidez. Ela foi embora há cinco anos.
Meus companheiros de bar me falam que eu devo seguir em frente, esquecer o passado e conhecer novas garotas, novos lugares. Mas como eu posso esquecer Lúcia? Só eu conhecia seu corpo e seu cheiro, só eu sabia como ela chorava lendo Cecília, só eu sabia que ela queria uma filha com nome de Pilar e que morria de medo de andar de barco. Se eu esquecer Lúcia e todas as coisas que a compunham, vai ser como se ela nunca tivesse existido.
Eu não posso seguir em frente, eu não posso me despedir. Lembra que eu disse que só podíamos viver de amor e viver de nós dois? Não há uma outra maneira. Há cinco anos Lúcia foi embora e me levou com ela.
Levou minha alma e esqueceu de levar meu corpo, esse ficou aqui, junto com as lembranças, bebendo em bares que a maioria das pessoas teria receio em entrar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário