Embora eu tenha ouvido falar desde muito novo de metades da laranja e almas gêmeas, nunca acreditei. Não até encontrá-la. Eu não achei que ia encontrar o amor da minha vida no fumódromo de um bar. É que eu fui até ali justamente fugindo de qualquer paixão, eu tinha acabado de terminar com uma namorada e fui ali pra me divertir, beber, talvez encontrar alguém, mas evitando qualquer tipo de compromisso.
Naquela noite eu bebi, bebi tanto que até passei mal, coisa que - juro - não costuma acontecer. Fui pro fumódromo tomar um ar, afinal era a única área aberta por ali. A música estava um pouco mais baixa, mas eu me lembro que tocava "Money" do Pink Floyd. E ela estava ali, fumando, com a maquiagem borrada. Ela não chorava, mas parecia lutar contra as lágrimas. Foi por isso que ela chamou minha atenção, não se tratava de sua beleza ou de sua exoticidade, o que acontece é que ela estava quase chorando em um lugar onde todo mundo estava bêbado e dançando ao som de rock. Ela se destacou por essa diferença, essa incapacidade de associá-la àquele lugar.
Acho que fiquei a encarando sem reparar, porque quando dei por mim ela me olhava com tanto ódio que minha vontade de vomitar até voltou. Voltei pra festa e pensei que eu nunca mais fosse vê-la.
Eu a encontrei novamente uns dias depois em uma livraria. Dessa vez sem cigarros, maquiagem borrada ou música do Pink Floyd, mas com um uniforme de atendente. Foi só aí que reparei que eu não tinha parado de pensar nela, que ela era quem me tirava o sono e quem me fazia desejar entender a vida. Acontece que eu me identifiquei com ela, mesmo tendo dito que ia "curtir minha vida" após o término do meu namoro, eu não tinha nascido pra aquela vida de bar. Não conseguia ver graça em ficar com mais de uma menina durante uma noite ou mesmo ficar com apenas uma menina sem ao menos conhecê-la. Naquela noite, eu não sei se tinha ido tomar um ar ou fugir da festa lá dentro. Quando a encontrei de novo naquela livraria, decidi que eu tinha fugido.
Claro que pedi ajuda pra ela. Queria achar "O Homem Duplicado" e ela me ajudou, ainda disse que já tinha lido aquele livro e que o adorava. Perguntei o que mais ela tinha lido do mesmo autor e conversamos durante um tempo razoável. Voltei à livraria diversas vezes só pra poder vê-la e conversar. Certo dia não resisti e a chamei pra sair.
Fomos a uma pizzaria no centro da cidade, comemos e depois ficamos conversando na praça. Parecia que nos conhecíamos há anos e ela também se sentia assim. Não demorou pra começarmos a namorar, com uns seis meses de namoro fomos morar juntos.
Vivemos juntos por quase um ano e então ela resolveu que essa cidade era muito pequena pros seus sonhos. Pegou suas roupas e foi embora.
Naquele tempo eu não sabia o que tinha deixado escapar das minhas mãos. Eu a apoiei e disse que ela tinha mesmo que seguir os seus sonhos, mas eu não a seguiria. Eu tinha 21 anos e não sabia o que era amor. Acho que só aprendi quando eu comecei a sentir sua falta, quando percebi que não importava a garota com que eu estivesse, nenhuma era como ela. E eu a deixei ir.
Percebo só agora que aquela menina que mal me recordo o rosto foi o amor da minha vida. E eu a deixei ir.
Como vou dormir se eu a deixei ir?
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