Tenho 47 anos e fui casada durante 22 deles. Meu casamento acabou há três quando descobri que meu marido me traía com uma mulher mais nova que nosso casamento e mais gostosa do que eu umas 22 vezes. Mas não acabou por causa da traição, ele acabou quando eu dei um ultimato de “ou ela ou eu”. Acho que não preciso me estender mais, seria redundante visto que já anunciei que não sou mais casada.
Uma outra amiga minha já tinha passado por uma situação semelhante e viu o término do casamento como uma esperança pra um novo início. Ia pra festas, saía com caras mais jovens e até hoje vive trocando de namorados. Mas ela tem espírito jovem. Eu tentei fazer o mesmo, só que nasci velha e cansada.
Tentei então aproveitar a vida ao lado dos meus filhos. Essa decisão durou apenas alguns segundos porque logo depois eu recordei de que todos eles moravam fora. Então pensei em arrumar um emprego. Eu nunca tinha trabalhado e apesar da graduação em Administração de Empresas, ninguém quis me contratar pela falta de experiência.
Minha peregrinação em busca de um novo início acabou em uma ponte. Eu ia me jogar de lá. Não me restava nada, só a esperança de que as coisas pudessem ser melhores em uma outra vida. Então, lá estava eu, olhando o rio que corria embaixo da ponte quando um senhor para o carro e buzina. Olhei em sua direção e ele gritou:
-O que você pensa que vai fazer?
Eu já disse que não tinha nada a perder, não é? Então respondi sem rodeios.
-Pular.
Ele desligou o carro e desceu.
-Você não pode fazer isso, dona. – “dona”. Me senti dez anos mais velha.
-Eu posso sim.
-Pra que fazer isso?
-Pra acabar.
-Não se acaba o que não terminou. – Foi aí que reparei nele. Aquele senhor se parecia muito com o meu avô. Tinha os mesmos olhos vivos, apesar da opacidade que a catarata causa. O bigode, a barba. Ele era idêntico ao meu avô, na verdade. Vocês podem pensar que eu estou louca. Mas eu juro que é verdade.
-Vô?
-Não se acaba o que não terminou, Lolô. As coisas só acabam quando elas têm um fim. A gente tem que suportar tudo pra morrer. Se você morrer agora as coisas não vão acabar. Sua história ainda vai ficar aqui, pairando no ar. Suas lembranças, as coisas que você devia viver... Lolô , você ainda não acabou.
Então meu avô, que não me chamava de Lolô desde que eu tinha seis anos, se virou e entrou no seu carro. Era o mesmo carro que ele dirigia quando me levou ao parque pela primeira vez. Fiquei ali observando o carro sumir. E me perguntando até que ponto aquilo tinha sido real.
Fui pra casa meio desorientada, bebi e dormi embalada pelo álcool.
Meu avô morreu com um enfarte fulminante quando soube que minha avó tinha morrido. Ela tinha Alzheimer. Ela não reconhecia mais ninguém, nem mesmo meu avô, mas mesmo assim todos os dias ele segurava sua mão e contava pra ela suas memórias e novidades.
Ele nunca chorou. Em nenhum momento meu avô vacilou. Até que meu pai disse que minha avó tinha morrido e seu rosto transformou-se em lágrimas e logo depois em um esgar de dor.
Ele levou as coisas até o final.
Foi aí que eu entendi que mesmo quando tiram todas as suas esperanças, você deve continuar até o fim.
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