segunda-feira, 4 de junho de 2012

Letícia

Naquela madrugada eu cheguei em casa meio bêbada, minha cabeça girava e dentro dela todos os pensamentos rodopiavam me dando vontade de vomitar. Eram umas quatro da manhã e eu mal conseguia sentir meus pés devido à dor causa pelos meus sapatos. A noite tinha sido péssima. Na verdade, todas as noites costumavam ser péssimas e eu sempre acordava de ressaca me perguntando o motivo de ter saído na noite anterior. 
Eu, que tenho fobia de gente, acabei criando a mania idiota de procurar amor durante a noite. Não, não. Eu sei que amor não é tão fácil de encontrar como uma foda no banheiro. Mas, mesmo assim, eu acabava por procurá-lo nos bares. Me entregava aos braços de desconhecidos, gente que pra mim era só corpo e nem mesmo tinham nomes. Se me perguntavam meu nome eu respondia “Letícia”, e na minha cabeça Letícia era a menina carente que se entregava à noite, enquanto eu permanecia intacta e protegida sob meu nome verdadeiro. 
Então me sentei no chão, de vestido e tudo. Eu não me importava mais, não tinha ninguém ali me vendo e minha maquiagem já estava muito prejudicada pra eu fingir que meu nome era Letícia. Tocava alguma música no apartamento vizinho, algum jazz antigo, e eu tive vontade de chorar. 
Não sabia exatamente o que trazia as lágrimas à tona, talvez porque não fosse só um motivo, mas minha vida inteira. O espelho na minha frente parecia zombar de mim, nem sei quanto tempo gastei me olhando no espelho, mas foi o suficiente pra chegar à conclusão de que, apesar dos meus muito defeitos externos, o maior dele era interno. Uma pústula no coração ou uma ulceração na alma, alguma dessas coisas que cheiram mal de longe. Se bem que, do jeito que as coisas andavam, poderia ser as duas coisas. 
Eu só queria amar! E ser amada de volta. Todo mundo tem alguém. Todo mundo. Em todo lugar que eu vou eu vejo casais e pessoas sendo felizes umas com as outras. Todo mundo acaba encontrando sua metade da laranja, a tampa da panela e etc. Mas não eu. 
Vinte e cinco anos. Sentada. Sozinha. Chorando pateticamente com o lápis escorrendo junto das lágrimas. Quando eu era mais nova me diziam pra esperar, diziam que minha hora ia chegar e alguém ia aparecer. Mas eu vi essa hora chegar pra maioria das minhas amigas, fui até madrinha de casamento de uma delas. Todo mundo tem alguém. Mas pra mim, a hora nunca chegou. 
Fui envelhecendo e ouvindo gente me falando pra mudar. Aí o defeito que antes era dos caras que não conseguiam ver o que eu era, passou a ser eu. “Você devia se abrir mais”, “Você devia usar roupas mais curtas”, “Você devia ser mais simpática”. E aí me amariam por tudo que eu não sou e isso não é amor, é só uma mentira. 
E eu estava ali, vestida de Letícia, com crise de consciência pensando se era certo ou não eu fingir que confundia amor com sexo, quando conhecia todas as diferenças entre eles. Não era fácil mentir pra mim mesma, sair toda noite sorrindo e acreditando que o cara da minha vida ia estar ali sentado no bar só me esperando. 

Eu só queria amar, eu só queria ser amada.

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