quarta-feira, 9 de maio de 2012

Maio

Foi em maio, pois só maio tem um céu tão azul.
Eu não me lembro muito bem das coisas, mas me lembro dos seus olhos. Elizabeth quase nunca sorria, diferente das outras crianças de sua idade. Embora ela estivesse vivendo comigo e Pedro há uns quatro anos, nossa relação não era nada íntima. Eu não sabia pelo que Elizabeth tinha passado, não sabia o que tinha visto ou ouvido e não teria coragem de invadir sua vida e me afundar em suas memórias.
Uma coisa que demorou a entrar em minha cabeça foi que eu não era mãe de Liza e jamais seria. Esse papel não me cabia. Apesar de amá-la com toda minha força, de querer protegê-la, de querer estar ao seu lado por toda a vida, ela não tinha saído de minhas entranhas ou tomado do meu leite. Há sete anos uma mulher cheia de sorte gerou essa princesinha, foi essa mulher que Liza chamou de mamãe e com quem viveu por três anos.
Mas naquela tarde de maio eu senti que Liza me amava como amaria sua mãe. Estávamos sentados na grama, eu, Pedro e ela. Eu lia um livro e Pedro tocava violão, Liza desenhava, mas em determinado momento ela parou e fechou os olhos. Só percebi um tempo depois, claro, mas deu tempo de vê-la ali, de olhinhos fechados, sentido o calor que só maio tem. De repente sua boquinha rosada começou a formar um sorriso. Não era uma gargalhada, nem mesmo um sorriso que mostra os dentes, mas era aquele sorriso que se dá quando a gente se sente seguro.
Pouco depois, ainda sorrindo, Liza abriu os olhos. Seus olhos eram doces e tinham cor de cerejeira, um castanho bem clarinho que, exposto ao Sol, parecia feito de mel. Ela olhou pra mim e continuou sorrindo. Não sei por quanto tempo, mas pra mim, aquele sorriso valeu uma vida inteira.

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