sábado, 2 de março de 2013

Lullaby: para alguém que escolheu as palavras, ao invés do mundo.

Tinham lá suas desavenças. E essa é, talvez, a característica mais importante de sua amizade. Eram pólos distintos, mas, como já dita a física, cargas opostas se atraem e, por isso, não conseguiam ficar longe uma da outra. Uma era crua quando devia ser amável. A outra conservava seu bom coração até nas piores situações. Mas a verdade mesmo é que por dentro - no solo do buraco que todos carregamos dentro de nós - elas eram iguais.

Possuíam os mesmos sonhos bizarros, a cabeça que insistia em planar nas nuvens, os pés pesados demais para que pudessem deixar o chão. Tinham amigos maravilhosos e uma tendência enorme à melancolia e à tragédia. 

Carregavam um romance dentro do peito que um dia haveria de ser escrito. Derramavam todas suas dores sobre folhas de papel em branco e sonhavam com um amor que durasse a vida inteira e mais um dia. Tinham medo da solidão, mas quase sempre se enclausuravam em si mesmas. 

E uma acreditava na outra. Bom, pensando agora, esse sim é o aspecto mais importante do amor que as une. Tinham uma fé cega nos sonhos uma da outra. Se amavam do jeito que só irmãos sabem amar: uma mistura tão sútil que era difícil saber onde terminava a raiva e começava a graça. 

Só que eu acredito que esse tipo de amor é um dos mais bonitos. E (eu desejo às estrelas) um dos que mais duram.

Parabéns, Lullaby. 

Peggy

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Cada um de nós é um universo, Pedro

Meu peito ardia. Meus olhos brilhavam lubrificados por lágrimas. Se não fosse meu esforço, minhas mãos estariam tremendo. Escondi minha dor e virei a cabeça pra janela. Era madrugada e a cidade inteira dormia. O céu vestia-se de um azul profundo bordado com milhares de estrelas. Foi nesse momento, pequena epifania que vez ou outra a vida nos concede, que eu percebi que ninguém jamais nos ama por completo. Ninguém nunca vai nos amar em todos os nossos detalhes. Ninguém vai amar toda a nossa história ou nossas cicatrizes. Não importa o quão verdadeiro seja o “eu te amo”, ele nunca se bastará. Ele nunca será inteiro. A única pessoa capaz de nos amar por completo é essa parte consciente que reside dentro de nós. Mas o nosso amor também não basta. Mesmo nos amando com tudo que podemos, nunca conseguiremos amar até nossos defeitos. Conhecemos o Jekyll e o Hyde dentro de nós. Podemos até gostar da existência do Hyde, mas nunca vamos amá-lo por completo.
Todos nós somos um universo. Não somos apenas parte constituinte do mundo, como ele também reside em nós. Carregamos um mundo inteiro dentro do peito. Apesar de ser óbvio que a alma é como um céu noturno, nem todas as pessoas vão querer encarar o nosso céu. Talvez porque ele pareça nublado ou porque exista tantas luzes artificiais que não é possível contemplar as estrelas.
Mas, algumas pessoas vão querer ver as nossas estrelas. E essas são as pessoas que nos amarão. Só que é preciso lembrar que aqueles que têm capacidade de ver as estrelas, também podem (é claro, se tentarem com afinco) ver os nossos buracos negros. E não importa o que digam. Ninguém ama buracos negros. Ninguém ama todos os nossos medos e outras coisas escuras que se escondem sob um sorriso.
“Você ficou triste?”. Parei de olhar o céu e percebi que sempre estivera triste. Durante toda a minha vida eu sempre soube que chegaria o momento que eu perceberia que o amor não é tudo. Só não havia concretizado essa ideia.
“Eu estou bem.” Menti. Eu também não era capaz de amar seus buracos negros.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

03:10

Tudo flui porque tudo é efêmero. 
Tudo muda. Se altera. Se distancia. Os laços perdem a força e a gravidade os derruba no chão. Até as certezas mudam e as coisas que me faziam tremer já nem me arrepiam mais. Eu não sei o que vai ser daqui pra frente, não sei se o trem continuará nos trilhos, na verdade, começo a questionar se existem mesmo trilhos e se é certo comparar a vida a um trem e se não seria melhor compará-la a uma queda livre. Tudo é mutável. Nem mesmo o universo é estático. Paradoxo de Olbers. Muitas estrelas e mesmo assim tudo é escuro. A quiromancia não me atrai e o futuro é uma incógnita que não ouso decifrar. Confusão e fluxo de consciência. Quão consciente estou das escolhas que faço? Quantas rachaduras nos lábios serão necessárias até que eu pare de fazê-los sangrar? Minhas mãos procuram coisas inalcançáveis e meus desejos são insaciáveis. O mundo, meu bem, o mundo é um moinho. Não durmo. Não sinto. Não sonho. Não ousarei sonhar. Jogo-me todos os dias de um precipício assim que levanto da cama. Não estou triste, não pense que choro enquanto escrevo ou qualquer coisa do tipo. Estou ouvindo um grunge estranho e a sobriedade desse momento parece durar a vida inteira. Não estou feliz, não ousaria dizer isso. Estou viva. Pulsando. Pulsando. Meu coração é um vale de desapegos e chove tanto lá fora. A gente se entrega tão fácil e eu encontro espinhos em tudo que é rosa. Eu estive aqui. Me derramei aqui. Me espalhei aqui. Eu amei. Amei tanto em tão pouco tempo e eu não sou de amar. Da minha dor, eu é quem sei. São 03:10 da manhã. Tá ventando. Tô com um monte de perguntas na cabeça.
Tô me desculpando.
Eu sou relapsa demais.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Não há estrelas suficientes para apaziguar a escuridão

Existem estrelas infindáveis, multiversos que se cruzam em estranhos pontos cósmicos, os tais buracos de minhoca, e buracos negros com gravidades absurdas. Há um paradoxo, do qual não me lembro bem, que questiona o fato de haver noites quando o brilho dos astros é muito superior à escuridão. E eu ficava pensando que realmente é complexo que o mundo seja um breu a maior parte do tempo, mesmo com tantas estrelas. Fico meio pessimista quando penso assim.
Comecei a me interessar por astronomia quando meu pai faleceu. Mamãe disse que ele foi pro céu e eu resolvi procurá-lo. Levava uma cadeira pro quintal e ficava ali olhando as estrelas e me encantando por esse mistério fabuloso que é o espaço sideral. Gostava de imaginar meu pai morando entre estrelas, cercado por anjos, harpas etc. Mas isso foi antes de eu conhecer o paradoxo que eu falei. Paradoxo de Olbers. Esse paradoxo também pontua que a escuridão é a prova da finitude do universo.
Pra mim, a escuridão é a prova da finitude de tudo. A gente fecha os olhos quando morre e tudo é escuro. A gente apaga as luzes e tudo é escuro. O Olbers era um cara alemão. Eu imagino que ele deva ter sido um cara bem triste pra se contrapor à teoria do infinito. Ou bem rebelde. Não é mágico pensar que o céu é infinito? Um universo imenso e estático. Olbers ia contra isso. Se o universo é escuro, ele acaba. O Paradoxo de Olbers sustenta também a teoria dos multiversos.
E meu pai mora no céu. E o universo é tão escuro que nem a soma do brilho de todas as estrelas é capaz de iluminá-lo. O homem inventou a luz, mas não a escuridão. Não temos desiluminadores como no Harry Potter, mas temos luminárias. A escuridão é mais natural do que a luz. Isso tudo me dá muita vontade de chorar.
Olbers deve ter sido um cara interessante. Ele conseguiu viver até os 81 anos sabendo da supremacia da escuridão sobre a luz. Eu adoraria falar com ele. Eu adoraria saber o que ele fez pra suportar o peso desse paradoxo.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Das coisas que você me deixou perceber, G.


"1. Você é solo estéril, G. Não importa o quanto seu corpo seja quente ou quanto ardor caiba em seus beijos, por dentro você sempre será esse deserto gelado onde nada cresce, a não ser a solidão.
2. A verdade é que, embora você negue ter amado alguma vez na vida, você sabe sim o que é amor. Sua língua já moveu-se entre suas mandíbulas formando um "eu te amo". Digo isso, pois creio que essa seca dentro de seu coração é consequência de uma exploração descuidada do passado.
3. Apesar de considerar-se bem-sucedida em seu projeto de mulher, G., saiba que sua máscara é falível e, vez ou outra, é possível ver os olhos da menina de 23 anos recém-completos me espiando sob sua maquiagem. Aprenda que a verdade não se esconde com pó e sombra.
4. Me assusta que alguém tão jovem já esteja tão desiludido, G. Me assusta porque eu mesmo só dei de cara com minha desilusão ao perceber que os cabelos brancos eram mais numerosos do que os castanhos. Talvez, por isso, eu não tenha te procurado quando soube que precisava de mim, como quando te via bebendo aquela quantidade absurda de remédios ou notava os pequenos cortes em seus pulsos. Te pediria perdão, mas não consigo ver minha covardia como um erro.
5. Sua voz, sua pele, sua boca, seus olhos, seus seios, suas pernas e seu (raríssimo) sorriso são as coisas mais doces do mundo, G.
6. Me impressiona quanto rancor um corpo tão pequeno quanto o seu é capaz de guardar. Posso ver as chamas dançando em seus olhos quando você fala de como conseguiu cada uma das cicatrizes que compõem sua coleção. 
7. Espero, sinceramente, que você encontre qualquer coisa pra chamar de felicidade um dia. Embora eu tenha quase certeza de que sua mente realista e conturbada acabe por te convencer de que isso não existe antes mesmo de você completar 30 anos."